quarta-feira, 28 de maio de 2014

Idade média e Práticas corporais

Idade Média e as práticas corporais Segundo os historiadores a Idade Média se dá com a queda do Império Romano com a invasão dos Bárbaros por toda a Europa. Inicia-se então uma ampla disputa de territórios e também o que alguns se arriscam chamar de um processo de mercantilização. Em virtude de várias atrocidades ocorridas durante tais disputas, percebe-se um aumento na crença do cristianismo e com ele a Teologia cristã. Tal crença prega uma acentuada valorização de aspectos espirituais em detrimento aos desejos corporais. Acreditava-se então que pessoas que nasciam com deficiências físicas eram enviadas por espíritos malignos e assim sendo, deviam ser excluídas do convívio social. Eram considerados hereges todos aqueles/as que tentavam aproximações com tais pessoas. O movimento da Inquisição, por meio do Santo Oficio, perseguiu e aprisionou centenas de pessoas por toda a Europa. Em virtude dessas crenças as práticas corporais nesse período foram diretamente impactadas. Danças “Durante a Idade Média, aproximadamente do século V até o século XIV, o cristianismo tornou-se a força mais influente na Europa. Foram proibidas as danças teatrais, por representantes da Igreja, pois algumas delas apresentavam movimentos muito sensuais. Mas os dançarinos ambulantes continuaram a se apresentar nas feiras e aldeias mantendo a dança teatral viva. Em torno do século XIV, as associações de artesãos promoviam a representação de elaboradas peças religiosas, nas quais a dança era uma das partes mais populares. Quando ocorreu a peste negra, uma epidemia que causou a morte de um quarto da população, o povo cantava e dançava freneticamente nos cemitérios; eles acreditavam que essas encenações afastavam os demônios e impediam que os mortos saíssem dos túmulos e espalhassem a doença. Isto ocorreu no século XIV. Durante toda a Idade Média, os europeus continuaram a festejar casamentos, feriados e outras ocasiões festivas com danças folclóricas, como a dança da corrente, que começou com os camponeses e foi adotada pela nobreza, numa forma mais requintada, sendo chamada de carola. No final da Idade Média a dança tornou-se parte de todos os acontecimentos festivos. A Renascença, que começou na Itália em torno de 1300 e espalhou-se por quase toda a Europa, por volta de 1600, foi um período de grande desenvolvimento cultural. Na Itália, os nobres contratavam mestres de dança profissionais para criar espetáculos de corte que incluíam danças chamadas balli ou balletti. Compositores importantes compunham a música e artistas de grande talento, inclusive Leonardo da Vinci, criavam as roupas e efeitos especiais, para os membros da corte poderem oferecer espetáculos uns aos outros. Catarina de Médicis, membro da família que governava Florença, na Itália, tornou-se rainha da França em 1547,e levou para a corte francesa a dança e os espetáculos italianos. Para um casamento real em 1581, Catarina contratou um grupo de artistas italianos para ir a Paris e criar o magnífico Balé Cômico da Rainha, que pode ser considerado a primeira forma de balé. Ela foi muito imitada em toda a Europa. Além de produzir espetáculos, os mestres de dança ensinavam danças sociais à nobreza como, por exemplo, a saltitante galharda, a solene pavana e a alegre volta. A dança tinha também um significado filosófico durante a Renascença: muitas pessoas acreditavam que a harmonia de movimentos da dança refletia a harmonia no governo, na natureza e no universo. O Rei Luís XIV da França, que viveu de 1638 a 1715, incentivou muito o desenvolvimento do balé. Seu apoio às artes tornou a França, o centro cultural da Europa. Ele próprio dançou entusiasticamente, durante 20 anos, nos balés da corte. Um dos seus papéis favoritos, o de Apolo, deus grego do sol, deu-lhe o apelido famoso de "Rei Sol". Em seu reinado, o balé veio a ter seus próprios intérpretes profissionais e a seguir um sistema formal de movimentos. Aos poucos, os bailarinos foram se transferindo da corte para ao teatro. O teatro tinha um arco de proscênio, que emoldurava o palco e os separava do público”. Jogos e Brincadeiras Cadernos de História da Educação - nº. 4 - jan./dez. 2005 47 Hoje em dia, o fato de que a infância deve ser a idade para a criança brincar, ir à escola e ser educada, parece-nos inquestionável. Entretanto, o conceito de infância não existiu sempre e da mesma maneira, como demonstra Philippe Ariès, no clássico História social da criança e da família. Para esse autor, o mundo medieval ignorava a infância. Não existia qualquer sentimento de infância, “a consciência da particularidade infantil, essa particularidade que distingue essencialmente a criança do adulto, mesmo jovem” (ARIÈS, 1981, p. 154). No momento em que a criança conseguia sobreviver sem os cuidados da mãe ou da ama, ela era integrada ao mundo dos adultos. Juntos aprendiam a brincar, a jogar e a arte de um ofício. A sociedade medieval representava a crianças como adultos em miniatura. A “descoberta” do sentimento de infância ocorreu entre os séculos XV e XVIII, quando se reconheceu que as crianças necessitavam de tratamento especial, uma espécie de “quarentena” – escolarização, antes de ingressar no mundo dos adultos. Recorrendo aos diários de Jean Héroard, médico do delfim da França, no início do século XVII, Áries (1981) e Manson (2002) evidenciam como eram as brincadeiras e a que períodos do desenvolvimento físico e mental cada uma delas correspondia. Assim, Luis XIII brincava com os brinquedos habituais das crianças pequeninas: cavalo de pau, cata-vento, e peão. Com um ano e cinco meses, o menino jogava “malha e pela”, jogo que, nos dias de hoje, poderia ser comparado ao de golfe e críquete. Nessa mesma idade, aprendeu a tocar violino, a cantar e a dançar, o que revela a importância da música e da dança na educação dos meninos naquela época. Em torno de 1600, a especialização das brincadeiras restringia-se à primeira infância; após os três ou quatro anos, ela desaparecia. “A partir dessa idade, a criança jogava os mesmos jogos e participava das mesmas brincadeiras dos adultos, quer entre crianças, quer misturada aos adultos” (ARIÈS, ibidem, p.92). No século XVIII, as atividades lúdicas dos adultos não apresentavam distinção em relação às desenvolvidas pela criança, compartilhavam dos mesmos jogos e brinquedos, inclusive com a presença ativa dos pequenos nas festas tradicionais e sazonais, das quais participava toda a comunidade, como o Natal, registrado por Héroard. Luis XIII, aos três anos, “viu a acha de Natal ser acesa, e dançou e cantou pela chegada do Natal” (ARIÈS, ibid., p. 97); na comemoração no dia de Reis, era uma criança que distribuía o bolo de Reis a todos os participantes e, segundo Héroard, a 5 de janeiro de 1697, o delfim foi “Rei pela primeira vez”; na festa de São João, cabia às crianças pequenas acenderem a fogueira; na festa da Terça-feira Gorda , as crianças e a juventude traziam seus galos de briga. Homens, mulheres e crianças brincavam de cabra-cega, guerra de bolas de neve, jogos de salão, como o de rima e o de mímica, ouviam os contos de fantasmas, lobisomens e do Barba Azul, diante dos quais as crianças ficavam apavoradas. Mme de Murat, ao discorrer sobre as fadas modernas, no final do século XVII, apresenta uma nova sensibilidade moderna sobre esse gênero: As fadas antigas, vossas precursoras, parecem criaturas frívolas comparadas a vós. Suas ocupações eram baixas e pueris, e só se divertiam as criadas e as amas. Todo o seu serviço consistia em varrer a casa, cuidar do fogão, lavar a roupa, embalar e adormecer as crianças, ordenhar as vacas, bater a manteiga e mil outras ninharias dessa ordem (...). Eis porque tudo o que nos resta hoje de seus feitos e gestos são apenas contos de fadas. (...) Elas não passavam de mendigas. (...) Mas vós, senhoras (as fadas modernas), vós seguistes por outro caminho. Só vós ocupais com coisas importantes. Dentre elas, as menos importantes são dar espírito àqueles que não o têm, beleza aos feios, eloqüência aos ignorantes e riqueza aos pobres. (ARIÈS, ibid., p. 120) Nessa época não havia uma diferenciação entre brinquedos de meninos e de meninas. Luiz XIII brincava com bonecas e de fazer comidinhas com utensílios em miniatura, de prata, chumbo, cobre ou barro verde. Héroard constata que o delfim: (...) brinca com uma pequena marmita de cobre que a ama lhe dera, quer cozinhar uma sopa com carneiro, toucinho e couves; coloca-se aos pés do seu leito. [...] [Em outro dia] mostrou desejo de preparar uma papa no seu tachinho de prata. Tínhamos dificuldade em obter leite: pede-me que envie alguém à cozinha, onde diz haver grande quantidade. Pergunto-lhe de quanto precisa. “Six plene chaudiere” [seis tachos cheios]. (MANSON, 2002, p. 129) Cabe destacar que cada contexto social produz uma cultura, a partir da qual emergem as concepções de infância, sua educação e a forma de brincar. Acompanhando os estudos históricos, observa-se que a diferença de gênero no lúdico é uma construção cultural. Assim, em torno dos anos 1600, (...) a boneca não se destinava apenas às menina. Os meninos também brincavam com elas. Dentro dos limites da primeira infância, a discriminação moderna entre meninos e meninas era menos nítida: ambos os sexos usavam o mesmo traje, o mesmo vestido. (ARIÈS, ibid., pp. 91-92) Entretanto, em torno dos sete anos, acontecia uma mudança na vida de uma criança do passado, particularmente para o menino. Esse abandonava o vestido comprido usado na infância e passava a usar calças curtas e um gibão; era proibido de brincar com bonecas e de carreteiro. Além disso, sua educação ficava sob a responsabilidade dos adultos do sexo masculino. O menino nobre aprendia a atirar, a caçar, a montar a cavalo e a jogar jogos de azar. As meninas, em contrapartida, continuaram, por muito tempo, a ser tratadas como pequenas mulheres. As diferenças de gênero, tênues durante a primeira infância, tornaram-se mais aprofundadas. Para Ariès (1981.p.81): O sentimento da infância beneficiou primeiro meninos, enquanto as meninas persistiram mais tempo no modo de vida tradicional que as confundia com os adultos: seremos levados a observar mais uma vez esse atraso das mulheres em adotar as forma visíveis da civilização moderna, essencialmente masculina. Como já foi demonstrado, nas sociedades tradicionais, adultos e crianças compartilhavam dos mesmos divertimentos, jogos e brincadeiras. A partir do século XIV, moralistas e pregadores, por um lado, condenavam toda prática de entretenimento, ou seja, a dança, a música, o teatro, os jogos de azar; a população, por outro lado, era indiferente a essas críticas. Entretanto, entre os séculos XVII e XVIII, surge uma atitude moderna em relação ao jogos, às brincadeiras e às crianças. Nesse novo sentimento, preocupa-se em preservar o aspecto moral e psicológico da infância. Proíbem-se os jogos considerados “maus”, como os de azar, por exemplo, e recomendam-se aqueles considerados “bons”, isto é, em que o corpo está em movimento. Enfim, distingue-se o universo da criança e o do adulto. Para Kishimoto (1999), os jogos tradicionais infantis fazem parte da cultura popular, expressam a produção espiritual de um povo em uma determinada época histórica, são transmitidos, sobretudo, pela oralidade e sempre estão em transformação, incorporando as criações anônimas de geração para geração. Ligados ao folclore, possuem as características de anonimato, tradicionalismo, transmissão oral, conservação, mudança e universalidade. As brincadeiras tradicionais, enquanto manifestações espontâneas da cultura popular, possuem a função de perpetuar a cultura infantil e desenvolver formas de convivência social. Em seu estudo, demonstra a imagem da criança e os jogos tradicionais no Brasil. Indígenas, portugueses e africanos, três raça e culturas diferentes, determinaram os jogos das crianças brasileiras. Imagens do corpo: reflexões sobre as acepções corporais construídas pelas sociedades ocidentais Thiago Pelegrini Resumo O estereótipo do corpo perfeito vem acarretando distúrbios psicofísicos nas populações contemporâneas. Tais sintomas têm sido detectados por especialistas a partir do computo do número de cirurgias plásticas realizadas com fins estéticos e do crescimento de enfermidades ligadas à auto-imagem como a anorexia e o narcisismo. Assim, este artigo propõe uma reflexão crítica acerca da necessidade de modificação da acepção de corpo contemporânea que tem sido massificada entre os segmentos sociais. Para tanto, procede à revisão bibliográfica acerca das concepções de corpo edificadas historicamente pela civilização ocidental que parecem corroborar os modelos estéticos atuais. Ante o exposto constata-se a necessidade de desvelar os mecanismos de construção dos modelos estéticos referidos e os interesses mercadológicos envolvidos na sua determinação e propagação. Palavras-chave: educação do corpo; ética; estereótipos corporais. O corpo coberto na Idade Média e a padronização dos movimentos da modernidade Na Idade Média o corpo serviu, mais uma vez, como instrumento de consolidação das relações sociais. A característica essencialmente agrária da sociedade feudal, justificava o poder da presença corporal sobre a vida cotidiana, características físicas como altura, cor de pele e peso corporal, associadas ao vínculo que o indivíduo mantinha com a terra eram determinantes na distribuição das funções sociais. Os homens eram submetidos a ordens rígidas e ao sistema de castas que impossibilitava qualquer tipo de ascensão social. O homem medieval era extremamente contido, seus impulsos individuais eram proibidos. A presença da instituição religiosa restringia qualquer manifestação mais criativa. A moral cristã tolhia qualquer tipo de prática corporal que visasse o culto do corpo. A concepção dualística do homem foi retomada e reacendeu a visão do corpo corrupto e pecaminoso, considerada empecilho ao desenvolvimento da alma. Nas artes plásticas, como destacou Gombrich (1999), ficava evidente a projeção do “corpo coberto”, aparentemente exaurido de preocupações estéticas. No entanto, o crescimento e aperfeiçoamento da produção agrícola e dos meios de transporte da sociedade feudal e o conseguinte acúmulo do excedente produzido geraram a necessidade de ampliação do comércio entre os feudos, dando origem a importantes feiras ou centros comerciais que mais tarde originaram as cidades medievais. Essas modificações provocadas pelo acréscimo da produtividade agrícola aliado à expansão comercial, promoveram algumas das condições necessárias para o desenvolvimento e instalação da indústria moderna. Esse fenômeno somado a outras modificações sociais, segundo o historiador Georges Duby (1992), marcou uma série de transformações que desembocaram no surgimento do sistema capitalista, os costumes e tradições foram substituídos pelo mercado e pela busca de lucros monetários, sobretudo no que tange a determinação da divisão e execução das tarefas produtivas e da disponibilização das oportunidades de trabalho. Na Renascença, as ações humanas passaram a ser guiadas pelo método científico. O avanço técnico - cientifico produziu nos indivíduos do período moderno um apreço sobre o uso da razão científica como única forma de conhecimento. O corpo, agora sob um olhar “cientificista”, serviu de objeto de estudos e experiências. A disciplina e o controle corporais eram preceitos básicos. Todas as atividades físicas eram prescritas por um sistema de regras rígidas, visando à saúde corpórea. A obtenção do corpo sadio circundava a dominação do indivíduo: a prática física domava a vontade, contribuindo para tornar o praticante subserviente ao Estado. O dualismo corpo - alma norteava a concepção corporal do período, demonstrando a influência das concepções da antiguidade clássica. Gallo explicita que segundo o filósofo moderno Descartes o homem constituía-se de duas substâncias: “uma pensante, a alma, razão de sua existência e a outra material o corpo”, visto como algo completamente distinto da alma (2000, p. 64). A forma de produção do sistema capitalista, a partir do século XVII, causou uma mudança drástica nas relações trabalhistas. O trabalho assumiu o valor de mercadoria, perdendo a importância qualitativa, se preconizava a quantidade. Essa relação se mostrou ainda mais óbvia, com o início da revolução industrial: a divisão técnica do trabalho acabou por cancelar o vínculo afetivo entre operário e produto. A “força muscular do trabalhador sua energia e resistência passaram a ser objeto de exploração capitalista”, reduzindo o trabalho a simples ação fisiológica, desprovida de criatividade (GONÇALVES, 1994). Na lógica de produção capitalista o corpo mostrou-se tanto oprimido, quanto manipulável. Era percebido como uma “máquina” de acúmulo de capital. Deste modo, os movimentos corporais passaram a ser regidos por uma nova forma de poder: o poder disciplinar. Esta manifestação de poder se instalou nas principais instituições sociais. Como bem o lembra Gonçalves, M. Foucault, em sua obra, Microfísica do Poder, apontou o seu mecanismo de atuação: Foucault mostrou como essa forma específica de poder, que surgiu a partir do século XVII, agia nas mais diversas instituições sociais – escolas, hospitais, prisões, fábricas, quartéis..., com o objetivo de submeter o corpo, de exercer um controle sobre ele, atuando de forma coercitiva sobre o espaço, o tempo, e a articulação dos movimentos corporais (GONÇALVES, 1994, p.24). Os homens e seus corpos eram vistos apenas na perspectiva do ganho econômico. O poder disciplinar, ao mesmo tempo em que promovia a utilização máxima da força de trabalho, domesticava e impossibilitava a resistência político-social do trabalhador. Referências DUBY, Georges. A Idade Média na França. Rio de Janeiro: Zahar, 1992. ECO, Humberto. Arte e Beleza na Estética na Estética Medieval. Rio de Janeiro: Editora Globo, 1993. HEROLD, Carlos Junior. Do corpo treinado pela necessidade à necessidade do treino: uma análise histórica do corpo no processo de construção da antiga sociedade grega. Revista da Educação Física. Maringá, v.8, 1997. Iluminismo(século XVIII): O Século das Luzes O Século das Luzes foi marcado, na Europa, pelo aumento da produção agrícola, pela urbanização acelerada, pela invenção da máquina a vapor e da locomotiva e pela Revolução Francesa. No entanto, apesar dos avanças tecnológicos e das mudanças operadas na estrutura econômica e na vida artística, foram os pesados volumes da Enciclopédia que mereceram o título de "o mais significativo monumento do século XVIII". OS ENCICLOPEDISTAS No início do século XVIII, uma enciclopédia recém-lançada na Inglaterra fez grande sucesso na França. Chamava-se Enciclopédia ou Dicionário de Artes e Ciências e era de autoria de Ephraim Chambers. Em 1746, o livreiro francês Le Breton confiou a tradução da obra ao filósofo, romancista e crítico literário Denis Diderot, que se associou para isso ao matemático Jean Le Rond D'Alembert. Ambos, porém, decidiram transformar e ampliar o projeto, criando uma obra original, que contaria com a colaboração de diversos filósofos, escritores e cientistas. Desse modo nasceu a Enciclopédia ou Dicionário Racional das Ciências, das Artes e dos Ofícios, ou mais simplesmente, a Enciclopédia, que reuniu mais de 160 intelectuais para sua elaboração e alcançou um total de 28 volumes, publicados no decorrer de 21 anos, de 1751 a 1772. Os editores e colaboradores da Enciclopédia - que passaram à História como os enciclopedistas - ficaram encarregados de áreas de sua especialidade, a fim de que os diversos temas fossem abordados com mais segurança e profundidade. Assim, a parte de filosofia foi entregue a Etiénne Condillac, Claude Adrien Helvétius, Condorcet e Holbach. As ciências ficaram a cargo de D'Alembert, Holbach e outros. Anne Robert Jacques Turgot e François Quesnay cuidaram de economia e política. A teologia foi abordada pelos abades Morellet, De Prades, Sallier e Yvon. Os responsáveis pela área de literatura foram François Marie Arouet (1694-1778), conhecido como Voltaire, Montesquieu (1689-1755) e Jean-François Marmontel. Além desses, outros pensadores escreveram para a Enciclopédia: Jean-Jacques Rousseau (1712-1778), por exemplo, tratou do verbete música. A obra contou ainda com o trabalho de desenhistas, que se deslocavam até oficinas, laboratórios e academias para fazer ilustrações de máquinas, equipamentos, dados de anatomia e tudo o que pudesse ser transmitido sob a forma de imagem. Por duas vezes os enciclopedistas foram obrigados a interromper seus trabalhos devido a pressões do Governo e da Igreja, que os acusavam de subversão. De fato, suas posições chocavam-se, em muitos pontos, com a fé católica. O próprio Diderot afirmava que a "moralidade pode existir sem religião; e a religião pode coexistir, e freqüentemente coexiste, com a imoralidade". Apesar dessas pressões, os enciclopedistas não deixaram de criticar um tipo de Estado (monarquia absoluta) que consideravam incompatível com a natureza humana. "Nenhum homem recebeu da natureza o direito de comandar os outros. A liberdade é um presente do céu e cada indivíduo da mesma espécie tem o direito de usufruí-la, tanto quanto ele usufrui da razão", proclamavam eles. Em vários artigos pregava-se a instauração de uma monarquia limitada e de um governo representativo, advogando-se a garantia das liberdades civis, além da introdução de muitas reformas sociais. Por trás de todo esse trabalho estava a idéia de que o homem é a medida de todas as coisas, concepção resumida por Diderot num dos verbetes da Enciclopédia: "O homem é o único limite do qual se pode começar e ao qual todas as coisas tem de retornar". DIVULGAÇÃO: A DEMOCRACIA DO SABER Na apresentação da Enciclopédia, Diderot e D'Alembert explicam o espírito da nova ideologia: "O objetivo de uma enciclopédia é o de reunir os conhecimentos até agora esparsos e sistematizá-los para em seguida divulgá-los (...). Assim, as aquisições dos séculos passados não mais se perderão, podendo ser utilizadas no futuro a fim de que nossos netos, tornando-se mais instruídos, sejam ao mesmo tempo mais felizes". A popularização foi, sem dúvida, um dos aspectos da nova cultura. Até aquele momento, o saber havia sido quase sempre um privilégio reservado a poucos "aristocratas da cultura". Os enciclopedistas, ao contrário, propunham um democracia do saber. Graças também ao desenvolvimento da imprensa (já se imprimiam jornais havia alguns decênios), os conhecimentos relativos a todas as "ciências, artes e profissões" começavam a ser divulgados; o povo lentamente ganhava acesso a tais informações. A divulgação do conhecimento e da cultura gerou um otimismo ilimitado, difundindo a crença de que o saber iria possibilitar a construção de um sociedade mais justa e mais próspera. CIÊNCIA E TÉCNICA A SERVIÇO DO HOMEM Durante séculos, a técnica, o artesanato e os trabalhos manuais foram desprezados pelas classes privilegiadas. Em alguns países da Europa chegou-se mesmo a proibir, por lei, que os nobres se dedicassem a atividades artesanais, industriais ou comerciais. A nova cultura, porém, rejeitou essa idéia, passando a defender outras muito mais "modernas": o saber devia incluir também o conhecimento técnico; a arte de um mestre tecelão é tão importante quanto a de um filósofo. Além disso, o conhecimento tecno-científico começou a ser visto como um instrumento a serviço do homem, capaz de lhe proporcionar uma vida mais fácil e rica. Os onze volumes de ilustrações atribuíam aos ofícios a dignidade que mereciam. "Já se escreveu muito sobre as ciências em geral", dizia Diderot, "e não se escreveu praticamente nada sobre a mecânica. Tínhamos de recorrer aos operários. E foi assim que recorremos aos mais hábeis entre eles (...) Demo-nos o trabalho de ir até seus locais de trabalho e lá indagá-los e escrever o que nos ditavam, desenvolver o que pensavam, aprender os termos técnicos específicos de suas profissões (...). O raro costume que temos de escrever e compreender explicações técnicas levou-nos a fazer uso das pranchas ilustradas..." Essas pranchas foram, se não os primeiros, pelo menos os mais famosos exemplos daquele ensino técnico que seria responsável pelo grande desenvolvimento industrial e econômico do Ocidente, a partir de meados do século XVIII. A IDADE DA RAZÃO Na primeira página da Enciclopédia, aparece uma figura feminina que irradia a "luz do saber", dissipando as "trevas da superstição": é a Verdade. A seu lado, de pé, duas outras figuras femininas levantam o "véu que escondia a Verdade", ou seja, o símbolo do erro e da ignorância. Uma dessas figuras é a Razão; outra cabeça é adornada por uma chama que simboliza o fogo da inteligência. A outra figura é a Filosofia, a rainha de todas as ciências. Ao lado da luminosa Verdade e suas corte estão: à direita, as várias Ciências; à esquerda, as Artes. Elas são conduzidas pela Imaginação, que se prepara para coroar a Verdade com uma guirlanda de flores. Embaixo, iluminados por feixes de luz, estão os seres humanos, empunhando os instrumentos com que realizam seus trabalhos. Essas figuras alegóricas resumem a ideologia do século XVIII: um novo mundo estava para ser construído pelo Homem. O conhecimento (feixes da Verdade e da Razão) iluminaria e esclareceria todos os problemas. Por tudo isso esse movimento foi chamado Iluminismo. UMA DÍVIDA COM O PASSADO As novas idéias não surgiram do nada, nem por acaso. Boa parte delas fora legada pelos grandes pensadores dos séculos XVI e XVII, que, na realidade, tinham dado os primeiros passos no sentido de "modernizar" o pensamento europeu. Um desses luminares foi René Descartes (1596-1650), cujo pensamento opunha a evidência da razão ao jugo das tradições ou da autoridade. Outras influências importantes foram Francis Bacon (1561-1626) e John Locke (1632-1704). Partidários do Empirismo, ambos sustentavam que a experiência sensível estava na origem do pensamento, não sendo possível o aparecimento de nenhuma idéia no intelecto sem que antes houvesse surgido no campo dos sentidos. E foram as regras de investigação científica explicitadas nos trabalhos de Isaac Newton (1642-1727) que serviram de elemento de ligação entre o Empirismo (rigorosa experimentação) e o pensamento do século XVIII. Sem dúvida, havia elementos comuns nas obras de pensadores como Newton, Descartes e Locke, de um lado, e o Iluminismo, de outro. Entre eles a recusa a qualquer idéia preconcebida ou crença ditada por alguma autoridade (religiosa, política ou filosófica) e a irrestrita confiança desses "pioneiros" da modernidade na força da razão e na eficácia do método científico. UM PROGRESSO ARRASADOR No século XVIII a Europa era um formigueiro de idéias e inovações. O progresso atingia todos os setores: arte, ciência, técnica, pensamento. Na verdade, estava em curso uma "revolução do espírito", como dizia Voltaire. Para que essa "revolução" seja entendia, porém, é importante lembrar o entusiasmo e a extraordinária abertura de novos horizontes que o progresso suscitou. Médicos e naturalistas puderam explicar com precisão científica muitos dos "mistérios" do corpo humano, dos organismos vegetais e dos elementos do reino mineral. Ao mesmo tempo, o francês Lavoisier (1743-1794) introduziu uma nova ciência - a química moderna - com a qual era possível explicar fenômenos obscuros, como, por exemplo, a combustão, desvendando assim segredos da composição da matéria. No campo da física, uma nova energia tornava-se objeto de estudo: a eletricidade, força até então inexplicável. No final do século XVIII, o italiano Alessandro Volta (1745-1827) conseguiu, finalmente, produzir e controlar a energia elétrica por meio de sua famosa pilha. As inúmeras utilizações da eletricidade nos dias de hoje dão uma idéia da importância dessa invenção. Um século antes, o físico e matemático inglês Isaac Newton havia explicado, de uma maneira ainda substancialmente válida, as leis que regem os corpos celestes e a precisão matemática de suas trajetória. A astronomia tornou-se uma paixão. Centenas de telescópios foram apontados para o céu; grandes matemáticos e físicos, estudiosos de óptica e de outras ciências criam novos "instrumentos" de pesquisa. Descobriram-se novos cometas, um novo planeta (Netuno), calcularam-se os eclipses. O mundo se dilatava. A descoberta a Austrália ampliou o mapa-múndi. A audácia do engenho humano não conhecia limites. O norte-americano Robert Fulton (1765-1815) construiu um barco que, embora sem remos ou vela, se movia mesmo contra a corrente: era um navio a vapor. Enquanto isso, os irmãos Montgolfier, com os seus balões de ar quente, alçavam-se às alturas abrindo caminho para a conquista do espaço. TUDO SE MOVE Enfim, tudo parecia ser alimentado pelo movimento. Os ilusionistas nada mais fizeram senão aplicar os princípios e métodos que tinham dado tão bons resultados na ciência e na técnica a outros campos do saber: filosofia, economia, política. E foi então que, a partir dessa prodigiosa "revolução cultural", começaram a germinar as sementes de muitas outras revoluções, que alterariam definitivamente, antes do final do século XVIII, a face da Europa. POR UMA SOCIEDADE MAIS JUSTA A Razão iluminava o caminho... O homem devia pensar com sua própria cabeça e não mais com a do sacerdote, a do falso cientista, ou a do soberano absoluto. Estava proposta a crítica; mas o que significava essa palavra? CRÍTICA: JUÍZO E ESCOLHA A crítica consiste em ter uma opinião e fazer uma escolha que decorra de uma análise racional de determinada situação. Uma escolha só será racional e justa se feita livremente, sem preconceitos ou limites de qualquer espécie. E, sobretudo, sem medo. Assim, para criticar e escolher o seu caminho, os homens do século XVIII começaram a pensar com a própria cabeça, questionando todos os campos do saber, inclusive os mais "delicados", ou seja, a religião e a política. CULTO A UMA NOVA DIVINDADE Muitos iluministas investiram contra a Igreja católica, principalmente contra a sua hierarquia (padres, bispos, pontífices), bem como qualquer hierarquia de outras religiões. Como, porém, tais idéias encontravam violenta oposição, foi necessário recorrer a uma série de artimanhas para levá-las a domínio público. Uma dessas artimanhas consistia num engenhoso sistema de remissões: após ler um verbete que discorria sobre as idéias religiosas tradicionais, o leitor era remetido a um outro artigo, de natureza crítica, que demolia os argumentos expostos no primeiro. Em sua maioria, porém, os iluministas acreditavam em Deus. Não no Deus da Bíblia, do Evangelho, do Alcorão ou de outro texto sagrado, mas num Deus organizador, arquiteto do Universo, certamente onipotente e muito sábio (afinal criara essa "maravilhosa máquina" que é a Natureza), mas bastante afastado da vida cotidiana dos seres humanos. O CIVILIZADO PRINCÍPIO DA TOLERÂNCIA Partidários do primado da razão e defensores da liberdade, era inevitável que os filósofos iluministas criticassem a inutilidade e desumanidade das guerras e dos processos por motivos religiosos, e que, paralelamente, pregassem a tolerância e o respeito pela opinião pessoas dos indivíduos. Esse princípio, já preconizado por Locke, foi também aplicado ao campo político. Os iluministas afirmavam que cada indivíduo tem direito a uma opinião própria e a exprimi-la livremente. Voltaire eternizou uma frase que sintetiza magistralmente esse princípio. Nela, o filósofo afirma que, apesar de não concordar com as opiniões de um interlocutor, está disposto a defender até a morte seu direito de manifestá-las. Isso nada mais é que o princípio da tolerância, um dos princípios da democracia moderna, que se baseia na liberdade e respeito à opinião de cada um. HOMENS E IDÉIAS Adotando a Inglaterra como modelo, Charles Louis de Secodant (Montesquieu) propôs a separação dos três poderes: ao Parlamento, eleito pelo povo, caberia a prerrogativa de fazer as leis (Poder Legislativo); ao rei ou ao Governo, o poder de executá-las (Poder Executivo); e aos magistrados e juizes, a função de julgar (Poder Judiciário). Assim divididos, os três poderes deveriam permanecer independentes, controlando-se uns aos outros, de modo a garantir liberdade e justiça para o cidadão. Cesare Beccaria (1738-1794) notabilizou-se pelo livro Dos Delitos e das Penas, no qual, após recomendar a prevenção do crime em vez de sua repressão, condenou a pena de morte e demonstrou a desumanidade e barbárie da tortura, muito utilizada nos interrogatórios de presumíveis culpados. Segundo Beccaria, as penas deveriam ter por objetivo auxiliar o réu a compreender seu erro e ajudar a sua reintegração na sociedade. Com a publicação de seu livro, muitos países aboliram a prática da tortura e alguns até mesmo a pena de morte. François Maria Arouet (Voltaire), após a grande batalha a favor da tolerância religiosa e política, lutou para que os objetivos dos governos fossem a liberdade e a igualdade. Em contrapartida verificou-se a reação daqueles cujos privilégios eram justamente resultado da existência da opressão e da desigualdade social, amparada pela própria lei. Jean Jacques Rousseau afirmava que, ao organizar a sociedade, os homens deviam ter em vista o objetivo de garantir a igualdade econômica e a liberdade, frutos da democracia. Segundo ele, o verdadeiro soberano não era o rei, mas o povo como um todo, a este cabendo, portanto, o poder de promulgar leis e dirigir a coletividade. Essas idéias revolucionárias eram consideradas monstruosas pelos déspotas da época. No entanto, antes do final do século XVIII, elas seriam colocadas em prática no bojo das transformações políticas e sociais desencadeadas com a Revolução Francesa (1789-1799). A HERANÇA DOS ENCICLOPEDISTAS Após a publicação desse grande marco do pensamento, outras enciclopédias de grande porte e rigor intelectual foram produzidas na Europa. Ainda em 1771, quando os últimos volumes da obra iluministas estavam sendo publicados, surgiu a Enciclopédia Britânica. Diferindo da publicação francesa, que analisava informações segundo a concepção iluminista do mundo, a Britânica seguindo a tradição do empirismo inglês, pelo qual só a experiência sensível era digna de tornar-se objeto de estudo - procurou apenas transmitir fatos e informações, sem a preocupação explícita de inseri-los numa determinada visão de mundo. Esses dois tipos de enciclopédia - a francesa, que analisa os dados com base em padrões preestabelecidos, e a inglesa, que simplesmente os divulga, evitando opinar sobre eles - serviriam de modelo até os dias atuais. DO ILUMINISMO: SÍNTESE DA RAZÃO, DA PAIXÃO E DO NATURALISMO O Iluminismo foi um amplo movimento literário, científico e filosófico que levou a civilização européia, no século XVIII, à conquista da idade da razão. De fato, foram os filósofos do Século das Luzes os responsáveis diretos pelo estabelecimento de novas idéias sobre o mundo natural e a sociedade que ajudariam a sepultar definitivamente o velho e antiquado Ancien Régime, período marcado pela persistência de antigas crenças e pela autoridade tradicional da monarquia absolutista. Afastando as idéias pré-concebidas e orientando o indivíduo acerca das inúmeras virtudes da razão, os filósofos do século XVIII acabaram por fundar a noção de progresso e felicidade: "o paraíso é aqui onde eu estou", dizia Voltaire, e não nas ficções e miragens fabricadas pela Igreja. Mas o triunfo do livre pensamento só haveria de ser assegurado após um longo e intenso combate, travado contra a Igreja e a força da tradição durante todo o século XVIII. Após a morte de Luís XIV, ocorrida em 1715, Paris reconquista a hegemonia sobre a vida cultural francesa, supremacia que perdera para o Palácio de Versalhes desde a consolidação do reinado do Rei Sol, a partir de 1661. Longe de uma corte devota e de um rei excessivamente austero e caprichoso, a nobreza fez novamente de Paris o seu turbilhão de prazeres. Este alegre estilo de vida, conhecido como "douceur de vivre", ou a suavidade do viver, refletia o ideal de uma existência absolutamente deliciosa e despreocupada, transcorrida entre os salões, os bailes e o teatro. O século XVIII, principalmente a sua segunda metade, foi o período mais glorioso da nobreza, época denominada de a Idade da Magnificência. E os salões parisienses constituíram-se nos centros privilegiados da vida mundana dessa alta aristocracia. O grande Voltaire, talvez a maior expressão da literatura francesa do século XVIII, exerceu nestes ambientes uma verdadeira realeza. Segundo sua própria caracterização dos salões, "havia em Paris um grande número de pequenas sociedades onde presidia sempre alguma mulher que, com o apagar de sua beleza, desejava fazer brilhar o seu espírito. Um ou dois homens de letras ocupavam aí o posto de primeiro ministro destes pequenos reinos". Nestes oásis literários não havia tema que não fosse discutido livre e acaloradamente. Desde a religião, passando pela economia e a política, todo assunto encontrava rapidamente seus detratores e simpatizantes. Foi num desses gorjeios filosóficos com um elemento da alta nobreza que Voltaire foi surrado e teve que se exilar na Inglaterra para não ser preso novamente na Bastilha. Os salões acabaram por alcançar um caráter universalista e liberal constituindo-se, 'junto com os clubes e os cafés, na base da formação da opinião pública do século XVIII. De seu centro dinâmico, Paris, as novas idéias filosóficas, literárias e econômicas se espalharam pelas províncias, ganhando rapidamente um terreno internacional. Aliás, o pensamento iluminista não teve o seu berço na França: nasceu na Inglaterra e na Holanda. Mas as principais correntes filosóficas do Século das Luzes encontraram em Paris seu núcleo irradiador. Aos filósofos e escritores franceses coube o trabalho de dar aos novos ideais uma forma literária agradável e acessível aos homens cultos daquele tempo. Foi a partir da França que tais idéias se difundiram e puderam ser assimila, das por toda a Europa. Em meados do século XVIII Paris já havia se transformado na capital cultural da Europa. A fama de seus salões literários e o prestígio de seus escritores e filósofos exerceu um poderoso fascínio sobre vários países. Assiste-se ao advento da "Europa Francesa", o francês tornando-se a mais prestigiada língua de cultura. Como disse Frederico II, da Prússia, o francês é "o passaporte que introduz as pessoas em todas as casas e em todas as cidades" da Europa. Os homens do século XVIII se tornaram mais cultos e bem informados. Os jornais também prestaram a sua contribuição ao desabrochamento da opinião e do espírito público. Pequenas gazetas e hebdomadários (jornais semanais) tratavam de todo tipo de assunto, inclusive aqueles que colocavam expostas as mazelas do regime absolutista. À medida que transcorria o século XVIII, o jornalismo panfletário tornava-se uma promissora profissão. Alimentados por artigos de homens de expressão como Voltaire, Rousseau e Diderot, os jornais eram aguardados ansiosamente nas mais distantes províncias do reino. A difusão dos livros também foi muito sensível no século XVIII, e meio seguro para a propagação dos valores emergentes. Estratos sociais como comerciantes e o baixo clero tomaram-se por esta época leitores muito assíduos. Forma-se de maneira intensa na Europa um verdadeiro comércio do espírito: "o comércio dos pensamentos se tornou prodigioso. Não há nenhuma boa casa em Paris, nenhum castelo que não tenha a sua biblioteca", afirmava Voltaire em 1769. Por meio de uma fé obstinada na razão como o meio mais certo e seguro para libertar os homens dos antigos desvarios do pensamento, os iluministas ergueram um mundo regido por princípios inteiramente novos. Mas o verdadeiro espírito do Século das Luzes, além da esperança depositada na onipotência da razão, reúne idéias que seguiram em muitas direções. Voltaire, Rousseau e a Enciclopédia são os emblemas mais clássicos do século XVIII. Mas este período viu nascer também a filantropia, a moderna pedagogia e a exaltação do sentimento humano, através da literatura. Os romances patéticos e sentimentais encontraram na França e em muitos países uma ampla audiência. A atração pela natureza selvagem substituiu as belas praças e jardins principescos, como os de Versalhes. Na segunda metade do século XVIII o culto da emoção e do amor fez época na literatura. Desse modo, é justo enfocar o século XVIII como um tempo responsável pela síntese entre naturalismo, sentimento e razão. Apesar de tantas inovações trazidas pelo Iluminismo, não se pretendeu destruir o mundo para colocar outro em seu lugar, mas regenerar a sociedade pelo afastamento da superstição e do fanatismo. Bibliografia CIPOLLA, Carlo M. História econômica da Europa pré-industrial. Lisboa: Ed. 70, 1994. DEYON, Pierre. O mercantilismo. São Paulo: Ed. Perspectiva, 1998. FALCON, F.J.C. O Iluminismo. São Paulo, Ática, 1989. FORTES, L.R.S. O Iluminismo e os reis filósofos. São Paulo, Brasiliense, 1989. SANTIAGO, T. (org.) Capitalismo, transição. Rio de Janeiro: Eldorado, 2000. Imagens do corpo: reflexões sobre as acepções corporais construídas pelas sociedades ocidentais Thiago Pelegrini Cabe lembrar que os ideais iluministas (século XVIII) acabaram por acentuar a depreciação do corpo, dissociando-o da alma, retomando a dicotomia corpo-alma, arquitetada na antiguidade clássica. O pensamento iluminista negou a vivência sensorial corpórea, atribuindo ao corpo um plano inferior. As necessidades de manipulação e domínio do corpo, paralelamente, concorreram para a delimitação do homem como ser moldável e passível de exploração. A expansão do capitalismo, no século XIX, propagou a forma de produção industrial em que a instrumentalização do corpo fazia-se necessária. A padronização dos gestos e movimentos instaurou-se nas manifestações corporais. As novas tecnologias de produção em massa desencadearam um processo de homogeneização de gestos e hábitos que se estendeu a outras esferas sociais, entre elas a educação do corpo, que passou a identificar-se não só com as técnicas, mas também com os interesses da produção (HOBSBAWM, 1996). A evolução da sociedade industrial propiciou um elevado desenvolvimento técnico-científico. As novas possibilidades tecnológicas propiciaram a elite burguesa moderna, um incremento de técnicas e práticas sobre o corpo. O aumento da expectativa de vida, as novas formas de locomoção e comunicação expandiram as formas de interação e realização de atividades corporais. O fácil acesso à informação trouxe infinitas possibilidades ao conhecimento. Contudo, a padronização dos conceitos de beleza, fundados no corpo magro ou musculoso ancorada pela necessidade de consumo criada pelas novas tecnologias e homogeneizada pela lógica da produção, foi responsável por uma diminuição significativa na quantidade e na qualidade das vivências corporais do homem contemporâneo. HOBSBAWM, Eric J. A era do capital, 1848-1875. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1996. Merengué, Devanir. A ordem e o mercado de prazeres. In: BRUHNS, Heloísa Turini e GUTIERREZ, Gustavo Luís (orgs.). Enfoques contemporâneos do lúdico: III Ciclo de Debates Lazer e Motricidade. Campinas, Autores Associados, 2002. A Nudez na História da Vida Privada Henrique Ferraz Estudante de Arquitetura e Urbanismo da EESC-USP - Escola de Engenharia de São Carlos da Universidade de São Paulo Nadime L'Apiccirella Estudante de Psicologia da UFSCar - Universidade Federal de São Carlos. Da Renascença à Revolução Francesa Evidentemente, é sobre o corpo que as normas da civilidade se exercem com maior rigor. Não é ele ao mesmo tempo a base das paixões, uma incansável moralização das condutas ordena que se esqueça o corpo e respeite a presença divina. Ela traça um caminho difícil e cheio de contradições. "Foi o pecado que nos impôs a necessidade de vestir-nos e cobrir de roupa nosso corpo", portanto a vestimenta deve obedecer a uma norma religiosa e moral que em todos os casos associa a nudez ao pecado original. Em determinados casos essa evolução sobre o corpo e a nudez começou muito antes do século XVIII. A decência específica, exigida na época de início, era que "algumas partes do corpo o pudor natural nos leva a esconder". Depois, a relação com o corpo ficou mais severa: É muito honesto para uma criança pequena manusear suas partes pudentas, mesmo com vergonha e pudor. Mas tudo não passa de uma única teoria: "O julgamento moral está totalmente integrado à experiência corporal". Ainda que se trate aqui de uma função considerada vil e repulsiva, no entanto com relação aos gestos mais cotidianos, progressivamente, se impõe uma distância que, do corpo ao corpo, tende a intercalar o espaço neutro de uma tecnologia que governa a ameaçadora espontaneidade da sensualidade. Assim como quando se está deitado, não se devia deixar que as cobertas sugerissem a forma do corpo, assim como, "quando sair da cama não se deve deixá-la descoberta, nem colocar a touca de dormir em algum assento ou outro lugar onde outros possam vê-la. A vigilância se tornou tão estreita que acabou proibindo toda relação imediata consigo mesmo: o decoro exige também que, ao nos deitarmos, escondamos de nós mesmos o nosso corpo e evitemos lançar-lhe até os menores olhares". Negação radical de qualquer intimidade. Às vésperas do Iluminismo, toda uma gama de práticas corporais cai, assim, numa clandestinidade furtiva, vergonhosa. Organiza-se ao redor do corpo uma esfera do silêncio e do segredo. Do privado ao público, do íntimo ao secreto: não forçaremos porém, as linhas de uma evolução extraordinariamente complexa. Se é clara a direção em que os comportamentos mudam entre o século XVI e o começo do XIX, tais transformações se efetuaram em rítmos e segundo cronologias muito variáveis. As funções corporais logo são subtraídas ao campo da civilidade. Do final da Idade Média a meados do século XVIII, nossos tratados em particular ignoram o corpo, à exclusão do rosto e das mãos, que são as únicas partes expostas. Os cuidados concentram-se no visível, na roupa e, sobretudo, na roupa branca, cujo frescor ostentado na gola e nos punhos constitui sinal autêntico do asseio. Porém, ao mesmo tempo, é inseparável de uma idéia do corpo que rejeita a água como um agente perigoso, suscetível de penetrar por toda parte. A higiene reabilita a intimidade corporal. Enfocada pela medicina e depois levada às escolas, logo se tornará, aliás, o dispositivo inédito de uma forma de controle coletivo dos comportamentos. Vemos que a socialização das técnicas do corpo, por mais que sejam expressamente reguladas, na verdade, só conseguem impor-se através de registros de representações e de práticas estabelecidas, ao mesmo tempo que ultrapassam o campo específico da civilidade. A roupa foi usada com a função de esconder a superfície do corpo. Mas faz da corporal o objeto de investimentos autônomos. A história do asseio não é intimidade isolada, em todo caso, convida a reconhecer no mundo dos gestos reprovados a outra forma silenciosa de intimidade. Veyne, Paul. História da vida privada: do Império Romano ao ano Mil. Companhia das letras, 1990, 14ª edição. Duby, Georges. História da vida privada: da Europa Feudal à Renascença. Companhia das letras, 1990, 10ª edição. Aries, Philippe, & Charier, Roger. História da vida privada: da Renascença ao Século das Luzes. Companhia das letras, 1991, 8ª edição. Duby, Georges, & Aries, Philippe. História da vida privada: da Revolução Francesa à Primeira Guerra. Companhia das letras, 1995, 1ª edição. Prost, Antoine, & Vincent, Gerard. História da vida privada: da Primeira Guerra aos dias atuais. Companhia das letras, 1995, 1ª edição. © Revista Eletrônica de Ciências - Número 21 - Agosto / Setembro de 2003. Educação no Brasil: a História das rupturas José Luiz de Paiva Bello (2001) Introdução A História da Educação Brasileira não é uma História difícil de ser estudada e compreendida. Ela evolui em rupturas marcantes e fáceis de serem observadas. A primeira grande ruptura travou-se com a chegada mesmo dos portugueses ao território do Novo Mundo. Não podemos deixar de reconhecer que os portugueses trouxeram um padrão de educação próprio da Europa, o que não quer dizer que as populações que por aqui viviam já não possuíam características próprias de se fazer educação. E convém ressaltar que a educação que se praticava entre as populações indígenas não tinha as marcas repressivas do modelo educacional europeu. Num programa de entrevista na televisão o indigenísta Orlando Villas Boas contou um fato observado por ele numa aldeia Xavante que retrata bem a característica educacional entre os índios: Orlando observava uma mulher que fazia alguns potes de barro. Assim que a mulher terminava um pote seu filho, que estava ao lado dela, pegava o pote pronto e o jogava ao chão quebrando. Imediatamente ela iniciava outro e, novamente, assim que estava pronto, seu filho repetia o mesmo ato e o jogava no chão. Esta cena se repetiu por sete potes até que Orlando não se conteve e se aproximou da mulher Xavante e perguntou por que ela deixava o menino quebrar o trabalho que ela havia acabado de terminar. No que a mulher índia respondeu: "- Porque ele quer." Podemos também obter algumas noções de como era feita a educação entre os índios na série Xingu, produzida pela extinta Rede Manchete de Televisão. Neste seriado podemos ver crianças indígenas subindo nas estruturas de madeira das construções das ocas, numa altura inconcebivelmente alta. Quando os jesuítas chegaram por aqui eles não trouxeram somente a moral, os costumes e a religiosidade européia; trouxeram também os métodos pedagógicos. Este método funcionou absoluto durante 210 anos, de 1549 a 1759, quando uma nova ruptura marca a História da Educação no Brasil: a expulsão dos jesuítas por Marquês de Pombal. Se existia alguma coisa muito bem estruturada em termos de educação o que se viu a seguir foi o mais absoluto caos. Tentou-se as aulas régias, o subsídio literário, mas o caos continuou até que a Família Real, fugindo de Napoleão na Europa, resolve transferir o Reino para o Novo Mundo. Na verdade não se conseguiu implantar um sistema educacional nas terras brasileiras, mas a vinda da Família Real permitiu uma nova ruptura com a situação anterior. Para preparar terreno para sua estadia no Brasil D. João VI abriu Academias Militares, Escolas de Direito e Medicina, a Biblioteca Real, o Jardim Botânico e, sua iniciativa mais marcante em termos de mudança, a Imprensa Régia. Segundo alguns autores o Brasil foi finalmente "descoberto" e a nossa História passou a ter uma complexidade maior. A educação, no entanto, continuou a ter uma importância secundária. Basta ver que, enquanto nas colônias espanholas já existiam muitas universidades, sendo que em 1538 já existia a Universidade de São Domingos e em 1551 a do México e a de Lima, a nossa primeira Universidade só surgiu em 1934, em São Paulo. Por todo o Império, incluindo D. João VI, D. Pedro I e D. Pedro II, pouco se fez pela educação brasileira e muitos reclamavam de sua qualidade ruim. Com a Proclamação da República tentou-se várias reformas que pudessem dar uma nova guinada, mas se observarmos bem, a educação brasileira não sofreu um processo de evolução que pudesse ser considerado marcante ou significativo em termos de modelo. Até os dias de hoje muito tem se mexido no planejamento educacional, mas a educação continua a ter as mesmas características impostas em todos os países do mundo, que é a de manter o "status quo" para aqueles que freqüentam os bancos escolares. Concluindo podemos dizer que a Educação Brasileira tem um princípio, meio e fim bem demarcado e facilmente observável. E é isso que tentamos passar neste texto. Os períodos foram divididos a partir das concepções do autor em termos de importância histórica. Se considerarmos a História como um processo em eterna evolução não podemos considerar este trabalho como terminado. Novas rupturas estão acontecendo no exato momento em que esse texto está sendo lido. A educação brasileira evolui em saltos desordenados, em diversas direções. Período Jesuítico (1549 - 1759) A educação indígena foi interrompida com a chegada dos jesuítas. Os primeiros chegaram ao território brasileiro em março de 1549. Comandados pelo Padre Manoel de Nóbrega, quinze dias após a chegada edificaram a primeira escola elementar brasileira, em Salvador, tendo como mestre o Irmão Vicente Rodrigues, contando apenas 21 anos. Irmão Vicente tornou-se o primeiro professor nos moldes europeus, em terras brasileiras, e durante mais de 50 anos dedicou-se ao ensino e a propagação da fé religiosa. No Brasil os jesuítas se dedicaram à pregação da fé católica e ao trabalho educativo. Perceberam que não seria possível converter os índios à fé católica sem que soubessem ler e escrever. De Salvador a obra jesuítica estendeu-se para o sul e, em 1570, vinte e um anos após a chegada, já era composta por cinco escolas de instrução elementar (Porto Seguro, Ilhéus, São Vicente, Espírito Santo e São Paulo de Piratininga) e três colégios (Rio de Janeiro, Pernambuco e Bahia). Quando os jesuítas chegaram por aqui eles não trouxeram somente a moral, os costumes e a religiosidade européia; trouxeram também os métodos pedagógicos. Todas as escolas jesuítas eram regulamentadas por um documento, escrito por Inácio de Loiola, o Ratio Studiorum. Eles não se limitaram ao ensino das primeiras letras; além do curso elementar mantinham cursos de Letras e Filosofia, considerados secundários, e o curso de Teologia e Ciências Sagradas, de nível superior, para formação de sacerdotes. No curso de Letras estudava-se Gramática Latina, Humanidades e Retórica; e no curso de Filosofia estudava-se Lógica, Metafísica, Moral, Matemática e Ciências Físicas e Naturais. Este modelo funcionou absoluto durante 210 anos, de 1549 a 1759, quando uma nova ruptura marca a História da Educação no Brasil: a expulsão dos jesuítas por Marquês de Pombal. Se existia algo muito bem estruturado, em termos de educação, o que se viu a seguir foi o mais absoluto caos. No momento da expulsão os jesuítas tinham 25 residências, 36 missões e 17 colégios e seminários, além de seminários menores e escolas de primeiras letras instaladas em todas as cidades onde havia casas da Companhia de Jesus. A educação brasileira, com isso, vivenciou uma grande ruptura histórica num processo já implantado e consolidado como modelo educacional. Período Pombalino (1760 - 1808) Com a expulsão saíram do Brasil 124 jesuítas da Bahia, 53 de Pernambuco, 199 do Rio de Janeiro e 133 do Pará. Com eles levaram também a organização monolítica baseada no Ratio Studiorum. Desta ruptura, pouca coisa restou de prática educativa no Brasil. Continuaram a funcionar o Seminário Episcospal, no Pará, e os Seminários de São José e São Pedro, que não se encontravam sob a jurisdição jesuítica; a Escola de Artes e Edificações Militares, na Bahia, e a Escola de Artilharia, no Rio de Janeiro. Os jesuítas foram expulsos das colônias em função de radicais diferenças de objetivos com os dos interesses da Corte. Enquanto os jesuítas preocupavam-se com o proselitismo e o noviciado, Pombal pensava em reerguer Portugal da decadência que se encontrava diante de outras potências européias da época. Além disso, Lisboa passou por um terremoto que destruiu parte significativa da cidade e precisava ser reerguida. A educação jesuítica não convinha aos interesses comerciais emanados por Pombal. Ou seja, se as escolas da Companhia de Jesus tinham por objetivo servir aos interesses da fé, Pombal pensou em organizar a escola para servir aos interesses do Estado. Através do alvará de 28 de junho de 1759, ao mesmo tempo em que suprimia as escolas jesuíticas de Portugal e de todas as colônias, Pombal criava as aulas régias de Latim, Grego e Retórica. Criou também a Diretoria de Estudos que só passou a funcionar após o afastamento de Pombal. Cada aula régia era autônoma e isolada, com professor único e uma não se articulava com as outras. Portugal logo percebeu que a educação no Brasil estava estagnada e era preciso oferecer uma solução. Para isso instituiu o "subsídio literário" para manutenção dos ensinos primário e médio. Criado em 1772 o “subsídio” era uma taxação, ou um imposto, que incidia sobre a carne verde, o vinho, o vinagre e a aguardente. Além de exíguo, nunca foi cobrado com regularidade e os professores ficavam longos períodos sem receber vencimentos a espera de uma solução vinda de Portugal. Os professores geralmente não tinham preparação para a função, já que eram improvisados e mal pagos. Eram nomeados por indicação ou sob concordância de bispos e se tornavam "proprietários" vitalícios de suas aulas régias. O resultado da decisão de Pombal foi que, no princípio do século XIX, a educação brasileira estava reduzida a praticamente nada. O sistema jesuítico foi desmantelado e nada que pudesse chegar próximo deles foi organizado para dar continuidade a um trabalho de educação. Período Joanino (1808 – 1821) A vinda da Família Real, em 1808, permitiu uma nova ruptura com a situação anterior. Para atender as necessidades de sua estadia no Brasil, D. João VI abriu Academias Militares, Escolas de Direito e Medicina, a Biblioteca Real, o Jardim Botânico e, sua iniciativa mais marcante em termos de mudança, a Imprensa Régia. Segundo alguns autores, o Brasil foi finalmente "descoberto" e a nossa História passou a ter uma complexidade maior. O surgimento da imprensa permitiu que os fatos e as idéias fossem divulgados e discutidos no meio da população letrada, preparando terreno propício para as questões políticas que permearam o período seguinte da História do Brasil. A educação, no entanto, continuou a ter uma importância secundária. Para o professor Lauro de Oliveira Lima (1921- ) "a 'abertura dos portos', além do significado comercial da expressão, significou a permissão dada aos 'brasileiros' (madereiros de pau-brasil) de tomar conhecimento de que existia, no mundo, um fenômeno chamado civilização e cultura". Período Imperial (1822 - 1888) D. João VI volta a Portugal em 1821. Em 1822 seu filho D. Pedro I proclama a Independência do Brasil e, em 1824, outorga a primeira Constituição brasileira. O Art. 179 desta Lei Magna dizia que a "instrução primária é gratuita para todos os cidadãos". Em 1823, na tentativa de se suprir a falta de professores institui-se o Método Lancaster, ou do "ensino mútuo", onde um aluno treinado (decurião) ensinava um grupo de dez alunos (decúria) sob a rígida vigilância de um inspetor. Em 1826 um Decreto institui quatro graus de instrução: Pedagogias (escolas primárias), Liceus, Ginásios e Academias. Em 1827 um projeto de lei propõe a criação de pedagogias em todas as cidades e vilas, além de prever o exame na seleção de professores, para nomeação. Propunha ainda a abertura de escolas para meninas. Em 1834 o Ato Adicional à Constituição dispõe que as províncias passariam a ser responsáveis pela administração do ensino primário e secundário. Graças a isso, em 1835, surge a primeira Escola Normal do país, em Niterói. Se houve intenção de bons resultados não foi o que aconteceu, já que, pelas dimensões do país, a educação brasileira perdeu-se mais uma vez, obtendo resultados pífios. Em 1837, onde funcionava o Seminário de São Joaquim, na cidade do Rio de Janeiro, é criado o Colégio Pedro II, com o objetivo de se tornar um modelo pedagógico para o curso secundário. Efetivamente o Colégio Pedro II não conseguiu se organizar até o fim do Império para atingir tal objetivo. Até a Proclamação da República, em 1889 praticamente nada se fez de concreto pela educação brasileira. O Imperador D. Pedro II, quando perguntado que profissão escolheria não fosse Imperador, afirmou que gostaria de ser "mestre-escola". Apesar de sua afeição pessoal pela tarefa educativa, pouco foi feito, em sua gestão, para que se criasse, no Brasil, um sistema educacional. Período da Primeira República (1889 - 1929) A República proclamada adotou o modelo político americano baseado no sistema presidencialista. Na organização escolar percebe-se influência da filosofia positivista. A Reforma de Benjamin Constant tinha como princípios orientadores a liberdade e laicidade do ensino, como também a gratuidade da escola primária. Estes princípios seguiam a orientação do que estava estipulado na Constituição brasileira. Uma das intenções desta Reforma era transformar o ensino em formador de alunos para os cursos superiores e não apenas preparador. Outra intenção era substituir a predominância literária pela científica. Esta Reforma foi bastante criticada: pelos positivistas, já que não respeitava os princípios pedagógicos de Comte; pelos que defendiam a predominância literária, já que o que ocorreu foi o acréscimo de matérias científicas às tradicionais, tornando o ensino enciclopédico. O Código Epitácio Pessoa, de 1901, inclui a lógica entre as matérias e retira a biologia, a sociologia e a moral, acentuando, assim, a parte literária em detrimento da científica. A Reforma Rivadávia Correa, de 1911, pretendeu que o curso secundário se tornasse formador do cidadão e não como simples promotor a um nível seguinte. Retomando a orientação positivista, prega a liberdade de ensino, entendendo-se como a possibilidade de oferta de ensino que não seja por escolas oficiais, e de freqüência. Além disso, prega ainda a abolição do diploma em troca de um certificado de assistência e aproveitamento e transfere os exames de admissão ao ensino superior para as faculdades. Os resultados desta Reforma foram desastrosos para a educação brasileira. Num período complexo da História do Brasil surge a Reforma João Luiz Alves que introduz a cadeira de Moral e Cívica com a intenção de tentar combater os protestos estudantis contra o governo do presidente Arthur Bernardes. A década de vinte foi marcada por diversos fatos relevantes no processo de mudança das características políticas brasileiras. Foi nesta década que ocorreu o Movimento dos 18 do Forte (1922), a Semana de Arte Moderna (1922), a fundação do Partido Comunista (1922), a Revolta Tenentista (1924) e a Coluna Prestes (1924 a 1927). Além disso, no que se refere à educação, foram realizadas diversas reformas de abrangência estadual, como as de Lourenço Filho, no Ceará, em 1923, a de Anísio Teixeira, na Bahia, em 1925, a de Francisco Campos e Mario Casassanta, em Minas, em 1927, a de Fernando de Azevedo, no Distrito Federal (atual Rio de Janeiro), em 1928 e a de Carneiro Leão, em Pernambuco, em 1928. Período da Segunda República (1930 - 1936) A Revolução de 30 foi o marco referencial para a entrada do Brasil no mundo capitalista de produção. A acumulação de capital, do período anterior, permitiu com que o Brasil pudesse investir no mercado interno e na produção industrial. A nova realidade brasileira passou a exigir uma mão-de-obra especializada e para tal era preciso investir na educação. Sendo assim, em 1930, foi criado o Ministério da Educação e Saúde Pública e, em 1931, o governo provisório sanciona decretos organizando o ensino secundário e as universidades brasileiras ainda inexistentes. Estes Decretos ficaram conhecidos como "Reforma Francisco Campos". Em 1932 um grupo de educadores lança à nação o Manifesto dos Pioneiros da Educação Nova, redigido por Fernando de Azevedo e assinado por outros conceituados educadores da época. Em 1934 a nova Constituição (a segunda da República) dispõe, pela primeira vez, que a educação é direito de todos, devendo ser ministrada pela família e pelos Poderes Públicos. Ainda em 1934, por iniciativa do governador Armando Salles Oliveira, foi criada a Universidade de São Paulo. A primeira a ser criada e organizada segundo as normas do Estatuto das Universidades Brasileiras de 1931. Em 1935 o Secretário de Educação do Distrito Federal, Anísio Teixeira, cria a Universidade do Distrito Federal, no atual município do Rio de Janeiro, com uma Faculdade de Educação na qual se situava o Instituto de Educação. Período do Estado Novo (1937 - 1945) Refletindo tendências fascistas é outorgada uma nova Constituição em 1937. A orientação político-educacional para o mundo capitalista fica bem explícita em seu texto sugerindo a preparação de um maior contingente de mão-de-obra para as novas atividades abertas pelo mercado. Neste sentido a nova Constituição enfatiza o ensino pré-vocacional e profissional. Por outro lado propõe que a arte, a ciência e o ensino sejam livres à iniciativa individual e à associação ou pessoas coletivas públicas e particulares, tirando do Estado o dever da educação. Mantém ainda a gratuidade e a obrigatoriedade do ensino primário Também dispõe como obrigatório o ensino de trabalhos manuais em todas as escolas normais, primárias e secundárias. No contexto político o estabelecimento do Estado Novo, segundo a historiadora Otaíza Romanelli, faz com que as discussões sobre as questões da educação, profundamente ricas no período anterior, entrem "numa espécie de hibernação". As conquistas do movimento renovador, influenciando a Constituição de 1934, foram enfraquecidas nessa nova Constituição de 1937. Marca uma distinção entre o trabalho intelectual, para as classes mais favorecidas, e o trabalho manual, enfatizando o ensino profissional para as classes mais desfavorecidas. Em 1942, por iniciativa do Ministro Gustavo Capanema, são reformados alguns ramos do ensino. Estas Reformas receberam o nome de Leis Orgânicas do Ensino, e são compostas por Decretos-lei que criam o Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial – SENAI e valoriza o ensino profissionalizante. O ensino ficou composto, neste período, por cinco anos de curso primário, quatro de curso ginasial e três de colegial, podendo ser na modalidade clássico ou científico. O ensino colegial perdeu o seu caráter propedêutico, de preparatório para o ensino superior, e passou a se preocupar mais com a formação geral. Apesar dessa divisão do ensino secundário, entre clássico e científico, a predominância recaiu sobre o científico, reunindo cerca de 90% dos alunos do colegial. Período da Nova República (1946 - 1963) O fim do Estado Novo consubstanciou-se na adoção de uma nova Constituição de cunho liberal e democrático. Esta nova Constituição, na área da Educação, determina a obrigatoriedade de se cumprir o ensino primário e dá competência à União para legislar sobre diretrizes e bases da educação nacional. Além disso, a nova Constituição fez voltar o preceito de que a educação é direito de todos, inspirada nos princípios proclamados pelos Pioneiros, no Manifesto dos Pioneiros da Educação Nova, nos primeiros anos da década de 30. Ainda em 1946 o então Ministro Raul Leitão da Cunha regulamenta o Ensino Primário e o Ensino Normal, além de criar o Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial - SENAC, atendendo as mudanças exigidas pela sociedade após a Revolução de 1930. Baseado nas doutrinas emanadas pela Carta Magna de 1946, o Ministro Clemente Mariani, cria uma comissão com o objetivo de elaborar um anteprojeto de reforma geral da educação nacional. Esta comissão, presidida pelo educador Lourenço Filho, era organizada em três subcomissões: uma para o Ensino Primário, uma para o Ensino Médio e outra para o Ensino Superior. Em novembro de 1948 este anteprojeto foi encaminhado à Câmara Federal, dando início a uma luta ideológica em torno das propostas apresentadas. Num primeiro momento as discussões estavam voltadas às interpretações contraditórias das propostas constitucionais. Num momento posterior, após a apresentação de um substitutivo do Deputado Carlos Lacerda, as discussões mais marcantes relacionaram-se à questão da responsabilidade do Estado quanto à educação, inspirados nos educadores da velha geração de 1930, e a participação das instituições privadas de ensino. Depois de 13 anos de acirradas discussões foi promulgada a Lei 4.024, em 20 de dezembro de 1961, sem a pujança do anteprojeto original, prevalecendo as reivindicações da Igreja Católica e dos donos de estabelecimentos particulares de ensino no confronto com os que defendiam o monopólio estatal para a oferta da educação aos brasileiros. Se as discussões sobre a Lei de Diretrizes e Bases para a Educação Nacional foi o fato marcante, por outro lado muitas iniciativas marcaram este período como, talvez, o mais fértil da História da Educação no Brasil: em 1950, em Salvador, no Estado da Bahia, Anísio Teixeira inaugura o Centro Popular de Educação (Centro Educacional Carneiro Ribeiro), dando início a sua idéia de escola-classe e escola-parque; em 1952, em Fortaleza, Estado do Ceará, o educador Lauro de Oliveira Lima inicia uma didática baseada nas teorias científicas de Jean Piaget: o Método Psicogenético; em 1953 a educação passa a ser administrada por um Ministério próprio: o Ministério da Educação e Cultura; em 1961 a tem inicio uma campanha de alfabetização, cuja didática, criada pelo pernambucano Paulo Freire, propunha alfabetizar em 40 horas adultos analfabetos; em 1962 é criado o Conselho Federal de Educação, que substitui o Conselho Nacional de Educação e os Conselhos Estaduais de Educação e, ainda em 1962 é criado o Plano Nacional de Educação e o Programa Nacional de Alfabetização, pelo Ministério da Educação e Cultura, inspirado no Método Paulo Freire. Período do Regime Militar (1964 - 1985) Em 1964, um golpe militar aborta todas as iniciativas de se revolucionar a educação brasileira, sob o pretexto de que as propostas eram "comunizantes e subversivas". O Regime Militar espelhou na educação o caráter anti-democrático de sua proposta ideológica de governo: professores foram presos e demitidos; universidades foram invadidas; estudantes foram presos e feridos, nos confronto com a polícia, e alguns foram mortos; os estudantes foram calados e a União Nacional dos Estudantes proibida de funcionar; o Decreto-Lei 477 calou a boca de alunos e professores. Neste período deu-se a grande expansão das universidades no Brasil. Para acabar com os "excedentes" (aqueles que tiravam notas suficientes para serem aprovados, mas não conseguiam vaga para estudar), foi criado o vestibular classificatório. Para erradicar o analfabetismo foi criado o Movimento Brasileiro de Alfabetização – MOBRAL, aproveitando-se, em sua didática, do expurgado Método Paulo Freire. O MOBRAL propunha erradicar o analfabetismo no Brasil... Não conseguiu. E, entre denúncias de corrupção, acabou por ser extinto e, no seu lugar criou-se a Fundação Educar. É no período mais cruel da ditadura militar, onde qualquer expressão popular contrária aos interesses do governo era abafada, muitas vezes pela violência física, que é instituída a Lei 5.692, a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, em 1971. A característica mais marcante desta Lei era tentar dar a formação educacional um cunho profissionalizante. Período da Abertura Política (1986 - 2003) No fim do Regime Militar a discussão sobre as questões educacionais já haviam perdido o seu sentido pedagógico e assumido um caráter político. Para isso contribuiu a participação mais ativa de pensadores de outras áreas do conhecimento que passaram a falar de educação num sentido mais amplo do que as questões pertinentes à escola, à sala de aula, à didática, à relação direta entre professor e estudante e à dinâmica escolar em si mesma. Impedidos de atuarem em suas funções, por questões políticas durante o Regime Militar, profissionais de outras áreas, distantes do conhecimento pedagógico, passaram a assumir postos na área da educação e a concretizar discursos em nome do saber pedagógico. No bojo da nova Constituição, um Projeto de Lei para uma nova LDB foi encaminhado à Câmara Federal, pelo Deputado Octávio Elísio, em 1988. No ano seguinte o Deputado Jorge Hage enviou à Câmara um substitutivo ao Projeto e, em 1992, o Senador Darcy Ribeiro apresenta um novo Projeto que acabou por ser aprovado em dezembro de 1996, oito anos após o encaminhamento do Deputado Octávio Elísio. Neste período, do fim do Regime Militar aos dias de hoje, a fase politicamente marcante na educação, foi o trabalho do economista e Ministro da Educação Paulo Renato de Souza. Logo no início de sua gestão, através de uma Medida Provisória extinguiu o Conselho Federal de Educação e criou o Conselho Nacional de Educação, vinculado ao Ministério da Educação e Cultura. Esta mudança tornou o Conselho menos burocrático e mais político. Mesmo que possamos não concordar com a forma como foram executados alguns programas, temos que reconhecer que, em toda a História da Educação no Brasil, contada a partir do descobrimento, jamais houve execução de tantos projetos na área da educação numa só administração. O mais contestado deles foi o Exame Nacional de Cursos e o seu "Provão", onde os alunos das universidades têm que realizar uma prova ao fim do curso para receber seus diplomas. Esta prova, em que os alunos podem simplesmente assinar a ata de presença e se retirar sem responder nenhuma questão, é levada em consideração como avaliação das instituições. Além do mais, entre outras questões, o exame não diferencia as regiões do país. Até os dias de hoje muito tem se mexido no planejamento educacional, mas a educação continua a ter as mesmas características impostas em todos os países do mundo, que é mais o de manter o "status quo", para aqueles que freqüentam os bancos escolares, e menos de oferecer conhecimentos básicos, para serem aproveitados pelos estudantes em suas vidas práticas. Concluindo podemos dizer que a História da Educação Brasileira tem um princípio, meio e fim bem demarcado e facilmente observável. Ela é feita em rupturas marcantes, onde em cada período determinado teve características próprias. A bem da verdade, apesar de toda essa evolução e rupturas inseridas no processo, a educação brasileira não evoluiu muito no que se refere à questão da qualidade. As avaliações, de todos os níveis, estão priorizadas na aprendizagem dos estudantes, embora existam outros critérios. O que podemos notar, por dados oferecidos pelo próprio Ministério da Educação, é que os estudantes não aprendem o que as escolas se propõem a ensinar. Somente uma avaliação realizada em 2002 mostrou que 59% dos estudantes que concluíam a 4ª série do Ensino Fundamental não sabiam ler e escrever. Embora os Parâmetros Curriculares Nacionais estejam sendo usados como norma de ação, nossa educação só teve caráter nacional no período da Educação jesuítica. Após isso o que se presenciou foi o caos e muitas propostas desencontradas que pouco contribuíram para o desenvolvimento da qualidade da educação oferecida. É provável que estejamos próximos de uma nova ruptura. E esperamos que ela venha com propostas desvinculadas do modelo europeu de educação, criando soluções novas em respeito às características brasileiras. Como fizeram os países do bloco conhecidos como Tigres Asiáticos, que buscaram soluções para seu desenvolvimento econômico investindo em educação. Ou como fez Cuba que, por decisão política de governo, erradicou o analfabetismo em apenas um ano e trouxe para a sala de aula todos os cidadãos cubanos. Na evolução da História da Educação brasileira a próxima ruptura precisaria implantar um modelo que fosse único, que atenda às necessidades de nossa população e que seja eficaz. LIMA, Lauro de Oliveira. Estórias da educação no Brasil: de Pombal a Passarinho. 3. ed. Rio de Janeiro: Brasília, 1969. 363 p. PILLETTI, Nelson. Estrutura e funcionamento do ensino de 1o grau. 22. ed. São Paulo: Ática, 1996. ________ . Estrutura e funcionamento do ensino de 2o grau. 3. ed. São Paulo: Ática, 1995. ________ . História da educação no Brasil. 6. ed. São Paulo: Ática, 1996a. ROMANELLI, Otaíza de Oliveira. História da educação no Brasil. 13. ed. Petrópolis: Vozes, 1991.

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